Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

Indicação de blog

Saudações Amigos,

O assunto hoje é breve, mas não menos importante. Para o bem de todos nós uma grande escritora (e amiga) resolveu dividir seus escritos conosco na velocidade da internet. Trata-se de Tânia Cristina Dias, quem segue meu blog a mais tempo vai se lembrar d'A porta sem cômodos dentro' montado pela D. Maria do Fulô e dirigida por mim, (http://carlosrenatto.blogspot.com/2009/04/convite-porta-sem-comodos-dentro.html) então, essa peça foi baseada em seu livro homônimo e como toda boa parceria deve ser repetida, o Fulô está para estrear outra peça(Laura, e a incrível história da porca que tinha ataques de vontade) baseada num conto da Tânia, em breve falarei mais sobre este assunto.

Enfim, está dado o recado. vai aí o link: http://crismendanha.blogspot.com e divirtam-se com suas histórias.

Abraços!


Terça-feira, Fevereiro 02, 2010

Pardo é cor de bicho

É complicado convencer um sujeito mais velho sobre determinadas questões.
Eu tentava convencê-lo do contrário, mas o homem não mudava a opinião. Mesmo ela estando estampada na minha pele. Ele tentava me convencer que eu não era mestiço e isso é fato que não dá para negar, é só olhar para minha cara e pronto. Mas ele não, queria que enquadrar numa categoria que não me cabia.
Disse até ser mulato, mesmo sabendo que não sou, mas ele não...
Ainda na escola eu tentava entender essas coisas, o que era mulato, mameluco, cafuzo e outros tantos e pensava se um dia conheceria pessoas assim, tão estranhas, e mais tarde fui descobrir que sou assim também, estranho. Ou se preferirem: mestiço!
Tentei dizer pro sujeito que meus pais são de origens distintas. Minha mãe nasceu no estado do Rio de Janeiro, filha de um negro ferroviário descendente de escravos que veio da Bahia e casou com minha vó paulista que é filha de um português do Algarves, desses de anedota. Usava bigode longo e tinha uma padaria, mas começou a vida em são Paulo na instalação de postes do telégrafo. Meu pai é sujeito da roça, caboclo da região central de Minas, não se sabe a origem do seu pai, o meu avô, dizem que é herança do tempo dos tropeiros, então suponho que tenha qualquer coisa de indígena e africano em seu sangue, mas minha outra vó, mãe do meu pai, era índia, dessas com grandes olhos negros e o cabelo de dar inveja em qualquer moça da cidade. Ela foi raptada pelo meu avô numa tribo caiapó no Alto Paranaíba durante uma expedição a Goiás. Dessa cruza nasceu meu pai que nem sei dizer se tem cor. E do encontro dele com minha mãe nasceu eu, e o sujeito ainda insiste em dizer que não sou mestiço.
Ele insistia mesmo em dizer que eu era um branco meio isso meio aquilo. Moreno. Mas o sujeito é branco ou não, é negro ou não, e por aí vai. Eu sou mestiço. Pelos dicionários de língua portuguesa mestiço é exatamente o que eu sou, como tantos outros por aí. Tentava até explicar para ele que o povo brasileiro deveria ser todo classificado como mestiço, embora uns sejam mais mestiços que os outros. Mas ele não, batia o pé e firmava que eu sou praticamente branco.
Tentei outras investidas, mas ele era irredutível. Indaguei se ele conhecia Pernambuco, mas ele não quis nem saber. Não se importava. Pois se ele conhecesse iria perceber que lá são quase todos como eu, embora muitos tenham os olhos azuis, e até diria que eu tenho cara de pernambucano, uma mistura danada de boa de raças, culturas e crenças e então perceberia que eu sou mesmo mestiço como pernambucanos, mineiros e paraenses, mas mesmo estando equivocado o cara do serviço militar teimava em me classificar como branco. Mas devido à minha insistência e tamanha falta de paciência com o assunto, me classificou como pardo para eu não ter do que reclamar. Pardo! Pardo é a vaca da... deixa pra lá!
Isso só pode ser pirraça, porque pardo, pra mim, é cor de bicho!

Sábado, Janeiro 16, 2010

Dentro da Noite

Teria sido tão mais fácil se você tivesse apenas me feito chorar. Vejo seu corpo se afastando do meu. Lentamente se afastanto do meu. Meus olhos estão fixos num caminho que não posso seguir. Por onde passam seus passos. Caminho em sentido contrário. Na madrugada. Pelas ruas desertas dessa cidade tão pequena. As ruas parecem um nunca ter fim. Não há curvas. Caminho sempre para frente. Sei que me levarão para o mesmo lugar de sempre. Caminho vigiado por algumas estrelas mortas que teimam em brilhar, olhando-as tento alcança-las, sem, no entanto, reconhecer as pessoas que despercebidas passam por entre portas fechadas de estabelecimentos comerciais, árvores a enfeitar as calçadas, postes com suas luzes acesas, placas sinalizado o trânsito e os pesadelos que surgiram ao ver você partir.
Olho fixo o chão em que caminho. O chão parece me faltar. Caminho. Forte. Bravo. Determinado como se fosse verdade. Como se fosse ontem, quando ainda nos olhavamos e sorriamos como se fossemos os jovens apaixonados que fomos um dia com os corações pulsando cada vez mais forte e a cabeça cheia de sonhos e desejos. Caminho. Enganando qualquer um que acredite no silêncio dos meus olhos fechados a outros olhares. Atravesso ruas, avenidas, postes, praças, flores, mentindo para quem olhar, enganado a noite, passo a passo, veloz como a vida, contumaz como a guerra, caminhando em direção contrária ao vento. Caminhando só para chorar em meu quarto vazio.
O vento a balançar as árvores mais altas. Álguem, que como eu, atravessa a noite e não me percebe. O tempo passa por nós. Caminhamos em tempos diferentes. Estamos em universos diferentes. Diferentes. Ele quase encosta em meu braço, mas não me percebe. Eu quase encosto em seu braço, mas o ignoro. Ele caminha sem sequer saber para onde vai. Eu sequer caminho para onde meus passos me levam. Sempre sei onde me levarão, embora não queira nunca. Lágrimas pendem em meus olhos e faz com que as luzes se turvem. As luzes dos postes se turvam diante dos meus olhos. Os sinais na madrugada são turvos. Estrelas, letreiros, faróis se turvam. Estes pensamentos que me acompanham são turvos. Tento não correr e sou atravessado por sua imagem me dizendo palavras que machucam tanto.
Sonhavamos com o que realmente importava e estávamos enganados. Sonhavamos descobrir o mundo juntos. A cada dia ao nascer da primeira estrela, olhavamos para ela juntos e sonhavamos. Desejavamos o que nos tornaria felizes e estavamos enganados. Caminho sobre este asfalto frio de fim de estação e sei que estavamos enganados. E era bom o engano. Agora que estás longe não pensas mais em mim acredito que estávamos enganados.
Enquanto se afastava era como se estivesse saindo de dentro mim e me doía, sabia que não mais a veria além dessa noite onde tudo ao meu redor se fez negro e seus olhos me dizendo boa noite como quem diz adeus fez a noite e tudo o que ela cobre ficar negro. Minha alma se fez negra. Meu pensamento se cobriu de negro. Desde então não sou mais o que costumava ser, me enterrei ali naquele ponto onde comecei a andar e não sei se pararei. Teria sido tão mais fácil se você tivesse apenas me feito chorar. À minha frente só vejo portas fechadas, janelas fechadas, as luzes das casas apagadas, esquinas de ruas pelas quais nunca passarei. Cães vadios pela magrugada caminhando errantes como eu.
Sonhavamos e estavamos enganados. E ver o teu corpo partindo diante dos meus olhos e vê-lo seguir para um lugar onde minhas pernas não podem alcançar e saber que não tocarei o branco de sua pele e não ter você ao meu lado quando nascer a primeira estrela no fim da tarde jogados lado a lado sobre a grama de mãos entrelaçadas, os joelhos pesando um de encontro ao outro a espera da primeira estrela. E não mais nos enganar sonhando com um futuro que não passará de uma ilusão em nossas mentes. Devias apenas ter me feito chorar. Palavras machucam tanto. Eu não teria que atrevessar a noite contra o vento que não deixa que as lágrimas corram pelo meu rosto. Teria sido tão mais fácil.
Encaro novamente o céu. Encontro a estrela que nos pertence. Ela brilha entre as outras. Sei que ela nos pertence. É o que sobrou de nós e o que há de bom guardado na saudade. É a estrela mais bela, assim como o seu sorriso que é doce. Queria tê-lo aqui comigo. Gostaria que fosse meu como esta estrela que nos pertence e a lua que brilha imensa. Engarrafaria seu sorriso. Fechando-o hermético. Amarraria um belo laço em fita colorida e o colocaria circunspecto em meu criado mudo para vê-lo ao amanhecer. Todos os dias ao amanhecer. Enquanto nossa estrela brilha forte e teu sorriso permanece ao meu lado pelas manhãs que se seguem. Enquanto continuo acreditando no imenso amor que um dia sentimos um pelo outro.

Terça-feira, Janeiro 05, 2010

Conto - Dara

Acaso conheci uma mulher chamada Dara. Olhos grandes, ansiosos, duros como a rocha enegrecida. Boca como que desenhada, pele alva, sedosa como quem convida para o toque. Era uma bela mulher. Porém, Dara vivia sob a falsa ilusão de que no amor se encontrava a felicidade humana. Talvez se justifique pela vida que levava. As promessas que acreditara ainda moça quando o frescor da idade lhe permitira. Era casada com Pedro Alcântara de Melo, um sujeito que lhe dava na cara. Um homem tão rude quanto estúpido. Alto, forte e disforme, do tipo que não merecia a mulher que lhe tomara. Mesmo assim, Dara, era apaixonada e desse modo atroz se sentia feliz e, por alguma razão desconhecida, realizada.

Mas como em toda história onde o narrador não outorga o felizes para sempre precisa de um ponto final. Dara por Pedro desencantou. Encontrou um homem que a encantara. Um homem desses de verdade que se apaixona facilmente. Fala mansa, pegada forte, barba na medida do arrepio. Dava vista um homem desses ao seu lado. Nem pensou nas conseqüências ou se conseqüências haveria, se entregou como era esperado, além do necessário e devido a esse fato o romance pouco durou. Porque, de fato, como Dara suspeitava, ninguém a amava como ela almejava.

Amou Paulo, João Fernandes, Antônio, Marcelo, Guilhermo e Josué Bandeira. Abraçou, beijou, se deu. A vida perdia o sentido a cada perda de cada homem que amava. Relutava, esbravejava, atirava na parede os objetos mais frágeis que se encontravam no caminho e se jogava aos pés de cada um, mas era tudo em vão, pois todos, todos, um a um ela perdeu.

Muitos outros também vieram. De todos os lados, de todas as raças, credos e línguas. Tiveram Dara, possuíram Dara no tempo certo de uma trepada apenas. Alguns até se recusaram, nada quiseram, eram homens sem coração. Pensava. Por isso aceitou de volta Pedro, o que lhe dava na cara, era a felicidade que almejara, um homem ao seu lado, mesmo sem poder recusar, o que a vida lhe reservara.
Como toda história que não termina bem precisa sempre de um final qualquer. Dara não acabou sozinha, no entanto não sentindo amada. Da vida perdeu o gosto, a alegria, a vontade. Numa distração acabou atropelada por um inconsequente. Um sujeito que tinha pressa nas coisas, corria para alcançar o tempo, mas parou por um instante e pode ver a conseqüência do seu desatino. Dara só teve tempo de ver os belos olhos do rapaz, olhando-a, angustiado. Era o mais belo rosto que já havia se aproximado de seus lábios. Feliz por ele ter ser condoído e a ter colocado entre seus braços, não sabia que este era o autor de sua desdita. Seus olhos sobre seu corpo traziam de volta a doce sensação causada pela alegria perdida ao lado de Pedro. Era o amor de verdade batendo-lhe à porta. Um homem tão bonito quanto um anjo segurando-lhe a cabeça. Os olhos a correr no decote vermelho do vestido curto mostrando um corpo quase morto e o que os jornais nunca anunciariam: Dara, uma mulher ainda jovem, bonita, que vivia em busca de um grande amor morria lentamente apaixonada nos braços de um homem que não conhecia.

Pra começar o ano

Achei esse vídeo ontem na net e adorei...

Fica aí a mensagem pra este ano que começa já com tanta coisa ruim...

Abraços!

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Sábado, Dezembro 05, 2009

De agora em diante

Há um momento em nossas vidas que algumas questões se perdem e perdem importância. Palavras, amor, a pressa, o carro no mecânico, a próxima sessão no cinema, o emprego, alguns amigos, o computador levado pelo menino que mora na rua. A partir de então há outros momentos que nos interessam, e questões que perdem suas importâncias nesse meio tempo.

Buscamos tantos motivos sem os querer encontrar.

Perde-se importância um amor perdido de anos e anos, que valeu à pena numa outra ocasião, quando promessas faziam sentido e havia algum significado no olhar, mas hoje está tão longe que não dói durante lembranças que nos tomam no final da tarde, quando o sol ameaça se pôr, todos querem voltar para casa e nós caminhamos absortos entre pressas e sinais abertos.

Já não tem mais importância amizades que se perderam em momentos que poderiam ter estreitado laços. Pessoas que não se dão mais importância, então, já não importam mais.

Pensamos no ponto de partida e o rumo antigo de tudo que ficou para trás se abre novo.

De agora em diante o tempo é só uma miragem. Transforma a perda num instante bom e o vento sopra a nosso favor. Olhamos adiante, o pensamento está em paz, o acaso ao nosso alcance. E há tantas palavras novas a desvendar. Tempo, folha, jardim, vida, relógio, pedra, infinito. E o que importa na verdade são os segundos que antecedem.

E o mundo se mostra novo. Miramos o tempo e ele permanece o que era. O que se esvaiu se perde no limiar de um novo amor, de outros versos. E há questões que se perdem e perdem importância. Outro amor, um beijo, outro jeito de olhar o tempo, a moça que passa do outro lado da rua e não percebe que a olhamos.

Entre seu mundo e meus olhos.

Hoje sabemos de muita coisa que não conhecemos ou esquecemos que existe um começo, um fim, um intervalo, um recomeço. Escrevemos o que não foi vivido. Escrevemos o que outros já escreveram. Personagens são apenas palavras. Palavras que se transformam e não interessam tanto. Hoje sentimos falta de tanta coisa que não tivemos e nunca nos fez falta. Horas, palavras, honras, fotos, frases, o que penso, devaneio, infinito, mãos atadas, dezembros, sorte, amor, o nada, fim...

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Convite - Caleidoscópio


Estréia este fim de semana na Casa de Cultura o novo concerto da Academia Libre Cantare
Caleidoscópio

Foi quase sem querer que assumi a direção cênica de Caleidoscópio. Devagarinho, entre uma conversa despretensiosa e um palpite atrevido, entre uma visita e outra à sede da Academia Libre Cantare. Já estava feliz e empolgado por saber que estavam montando em Itabirito um concerto contemporâneo, tanto na escolha do repertório quanto em sua essência. Retrabalhando o formato e o modo de conduzir o trabalho.

Sempre prezei pelos bons espetáculos que usam o e

xperimento como concepção não importando o segmento ou a linguagem utilizada, principalmente os que dialogam com outras linguagens. O teatro, que é minha área de formação, sempre fez uso de outros artifícios para se constituir como obra de arte, seja no uso da música, dança, circo, vídeo ou literatura. O que tenho visto, de uns tempos para cá, que estas outras áreas têm se integrado na construção dos mais diversos tipos de espetáculos. E o que seria, talvez, impensado como quebrar a forma clássica de um coral, nas mãos de artistas como o Leandro Dantas, tem tomado uma outra dimensão que me agrada muito. É o caso desse concerto. Caleidoscópio aponta um caminho muito maduro para o Libre Cantare com um repertório que trafega entre o erudito e o popular de forma a não destoar nas mãos desse maestro que mostra conhecer bem cada voz que compõe seu coro e o potencial de cada um dos seus cantores.

Caleidoscópio apresenta um repertório com composições do século XX e XXI, misturando músicas inspiradas em universos distintos, como Minas Dentro do argentino radicado em Minas Gerais Hufo Herrera, referência ao cancioneiro popular brasileiro. Ou Três Epitáfios baseada no universo registrado por Cervantes em Dom Quixote de La Mancha na bela composição do espanhol Rodolfo Halffter, passando ainda por músicas de inspiração religiosa de autores como Heitor Villa Lobos e Luc Jakobs, entre outras. O mote desse trabalho foi fazer com que os coralistas, excelentes cantores por sinal, utilizassem não apenas a voz como instrumento, mas que todo o corpo pudesse participar do canto. Que a emissão de voz passasse por todos os poros e em cada movimento, intenção e gesto, principiando pelo olhar que é o que permite ao espectador apreender um pouco do que se passa na alma do artista.

Sinto-me honrado e especialmente feliz por fazer parte desse trabalho assinando a Direção de Cena, estando ao lado de nomes como o do Maestro Leandro Dantas e mais uma vez trabalhar com o grande Artista Plástico Walter Martins que está paramentando toda a obra.

Serviço:

Evento: Academia Libre Cantare - Caleidoscópio

Local: Casa de Cultura Maestro Dungas

Data: 07 de novembro

Horário: 20:30 horas

Valor: R$ 5,00 (preço único)

Informações: 31 3561-0044

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Música - Érika Martins e Julieta Venegas

Acabo de ver o vídeo clipe oficial da música Lento da cantora mexicana Julieta Venegas na voz da Érika Martins com participação da própria Julieta. Depois de 5 anos do fim de Penélope, banda que lançou Érika no mercado, o disco Érika Martins aparece como boa opção para os fãs do bom pop/rock nacional. Das 12 músicas 9 são de autoria da própria Érika e das regravações podemos conferir Lento que é uma das minhas músicas favoritas dentre todas as canções da Julieta. O clip até que ficou legalzinho.

Érika Martins não é das minhas preferidas, embora goste muito e ouço bem as coisas que ela canta. Ela costuma fazer versões sóbrias de músicas que gosto. Uma que me agrada muito é a versão de ‘Quem sabe’ do Rodrigo Amarante no CD Rock, Meu Amor ainda no tempo do Penélope. E deste mesmo CD podemos ouvir a não tão boa versão de Inbetween days do The Cure que virou Sem Você em suas mãos, mas para compensar podemos ouvi-la em inglês mesmo com o Hebert Viana no disco O som do sim.

Às vezes, acho que ela ainda deva fazer suas versões de músicas mantendo a língua original. A versão em português de Lento não me convenceu muito, embora o arranjo seja bacana, bem a cara da Érika.

Versões de músicas em outras línguas transpassadas para o português é comum, mas poucos artistas conseguem fazer bons trabalhos. Dentre estes poucos, acredito que só a Zélia Duncan tenha sensibilidade suficiente para dar a qualquer boa-velha-conhecida-música cara nova. Mas este assunto fica para um outro dia.

Quanto a Julieta Venegas, eu a conheci por acaso na ocasião do lançamento do CD Conector do colombiano Hector Buitrago em 2006, cuja Julieta fazia uma participação. Depois disso fui atrás dela na internet e me apaixonando a cada música que ou(via) no youtube, como Lento, Limón e sal, Me voy, Amores Perros, Eres para me, Por que te vas? entre tantas outras.

Ele tem se aproximado do Brasil pouco a pouco e entrando pela porta da frente. Este ano com a Érika Martins, mas em 2006 ela participou do MTV Acústico do Lenine dividindo os microfones com ele em Miedo e ano passado no seu próprio Unplugged teve a participação de Marisa Monte em Ilusion. E também este ano ela gravou com Otto duas músicas para seu recente trabalho ‘Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranqüilos’, Saudade gravada para o filme Só Deus Sabe (Brasil/México) e Lágrimas negras. Quem quiser conhecer melhor o trabalho dessa grande voz da música pop latina é só dar um giro pelo youtube e fazer uma visita em www.julietavenegas.net.

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Sábado, Outubro 10, 2009

Não basta apagar o fogo...

Foto da Frente de Combate ao Incêndio da Austrália.


Gosto da cumplicidade, da coragem e da certeza. Mais que isso, gosto da confiança entre o Homem e o Coala. Da forma como se tocam e se olham. Gosto dos gestos. Quando se depara com um tigre, qualquer animal sabe que ele irá atacar. É da natureza dele. Quando se depara com um colibri, qualquer animal sabe ele irá se afastar voando. Quando se depara com um homem, ninguém sabe de mais nada...

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Saídas Estratégicas

Admiro estas pessoas que se levantam em meio a apresentações de espetáculos, ou mesmo filmes e shows e voltam para suas casas (ou seja lá para onde vão) abandonando completamente o programa que passaram a semana inteira na intenção de ver. Já presenciei várias destas manifestações silenciosas de repulsa, algumas inclusive em trabalhos assinados por mim.

Na verdade eu venho colecionando estes pequenos repúdios desde a faculdade. Não que meus espetáculos sejam ruins, mas, pelo contrário, eu assumo alguns riscos que alguns espectadores não compram. Quando montei ‘A Intrusa’ de Maeterlink, usei como espaço de encenação o porão de uma casa centenária em Ouro Preto, cenário perfeito. Lá pela primeira meia hora de espetáculo (vale dizer que a apresentação durava 2 horas), quando todos os atores rezavam o credo, a luz baixava e alguém caminhava lentamente pelo assoalho algumas pessoas simplesmente fugiam. Era o momento mais divertido do espetáculo, ainda mais que alguns fugitivos não lembravam exatamente onde ficava a saída. A partir desse momento ficava clara a intenção de que a morte estava chegando e que poderia levar qualquer um. Neste caso é melhor fugir mesmo.

Alguns espectadores já saem de suas casas com expectativas criadas sobre o que irão assistir, se é comédia é pra rir, se é drama é pra chorar e pronto. Não sei se isso foi causado por alguns melodramas baratos ou por produções ruins de teatro e cinema, mas o fato é que muita gente não embarca na ‘viagem’ do diretor e acabam se decepcionando com uma intenção a mais ou alguma metáfora além do esperado. Caso do filme ‘Trainspotting’ do diretor britânico Danny Boyle, quando o ator Ewan McGregor, durante um delírio, luta desesperadamente contra uma privada. Pelo que se sabe boa parte da platéia desistia do filme exatamente nessa hora. Outros, mais atentos, compravam a idéia e assumiam os riscos de chegarem até o final.

Eu sou daqueles que fica até o fim, não importa o quanto ruim seja a atração. agora, seu eu me levantar, pode ter certeza, ‘a coisa’ é ruim mesmo. Presenciei certa vez uma retirada em massa num espetáculo duma renomada cia. de teatro de BH. Havia mais de 400 pessoas na platéia, no final do espetáculo os espectadores não chegavam a 15. Só não fui embora de vergonha. Imagina, eu, um quase diretor de teatro, naquela época, que não conseguia ficar até o final de um apresentação? Não ia pegar bem.

Quando digo que gosto de ver pessoas indo embora durante um espetáculo é sério, dá pra dosar direitinho quando o espetáculo é ruim como o caso que acabei de citar, ou quando a platéia não está preparada para as escolhas artísticas da obra, como o ‘Trainspotting’. Não entender as propostas da montagem, ou não perceber o que tem por traz de uma cena mais pretensiosa é uma coisa. Agora, quanto aos espetáculos ruins, taí uma grande chance que artistas e produtores têm de melhorar seus trabalhos.

Certa vez li uma crítica jornalística sobre um espetáculo teatral do Paraná que fez um final de semana em BH, onde o crítico não media palavras para dizer o quanto o trabalho era ruim. Ruim mesmo, texto, direção, atuação e todo resto. Na verdade só o primeiro parágrafo dizia tudo, já que ele começava dizendo que mais da metade da platéia foi embora antes do espetáculo chegar na metade. Fiquei muito curioso pra saber como a companhia tinha conseguido realizar tamanho feito. Eu me recusaria a escrever sobre o espetáculo, escreveria sobre algo que valesse a pena, mas não deixaria de assistir, como também sou alvo de críticas ou fugas em massa é bom que trabalhos ruins façam parte do meu programa de fim de semana para que não entrem no meu repertório.


Segunda-feira, Setembro 28, 2009

Momento raro... estou publicando um poema


Estão me cobrando textos novos, mas tá difícil escrever qualquer coisa nova com esse tanto de trem que dei de fazer este ano. Tenho algumas coisas no forno, e enquanto elas não assam, vai aí um poema como aperitivo...

reduto

não quero incomodá-lo com minhas palavras

mas não quero não dizer

e o que falo brota tão docemente de meu peito

que suavemente posso te envolver

sem qualquer problema que não se resolva facilmente


certeza eu ainda não tenho

mas procuro não pensar nessas coisas

eu só sei o que sinto


sinto-me assim quando sou eu mesmo

e o mundo não muda logo após


tento não ser redundante

tento não me repetir

qualquer texto

qualquer sentença

seria óbvia demais

e eu me explicaria sem razão


esses acontecimentos tornariam nossas vidas banais


não vejo problema nisso

outrora me incomodaria

mas numa sexta-feira como essa não me importo

procuro encontrar em seus olhos

um motivo tosco

para você me levar a sério

o resto seria desnecessário


não mais me incomodo com as palavras

ou com a falta delas


se sua mão tocar a minha

os versos de shakespeare perdem o valor

o calor do seu corpo se justificaria


frases bem feitas neste momento me deixariam confuso


verbos não combinam com você


e a certeza de seu amor por mim

fica tão clara e precisa nesta ocasião

quanto a certeza que tenho do meu amor por ti


mas são só certezas


nesta hora abro meus braços

te encontro reconfortado em meu abraço

no afago do meu colo sentindo seu cheiro

o mesmo que desperta este desejo

de te ter a todo instante


mas hoje é sexta-feira

e tenho em companhia um cálice de vinho

o pouco que sobrou de nossa embriaguez

do gosto que tem quando te beijo

quando inebriados podemos sentir mais verdadeiro

este sentimento que não sei como se escreve

mas teimo em usá-lo outra vez

codificado na palavra amor


carlos renatto


Quinta-feira, Setembro 10, 2009

De um azul que não se acredita

Não entro no mar. Levanto-me todas as manhãs e vejo o mar. Logo cedo há dezenas de pessoas caminhando na areia ou na calçada. O sol baixo, o vento brando, o mar calmo estimula estas pessoas. Às vezes tenho vontade de entrar em suas águas. Sentir o sal no corpo, o sol na pele, mas limito-me a acender um cigarro.
Ao acordar a primeira coisa que vejo é o mar, o mar e suas ondas e ao longe as jangadas passando perto de grandes cargueiros. Perto é o que me parece, o horizonte me confunde a essa hora. Então imagino que um dia eu possa me juntar aos pescadores e acompanha-los numa pescaria, penso isso enquanto fumo, mas limito-me a esperar ferver a água do café.
Todas as manhãs enquanto tomo meu café, vejo passar correndo Seu Ulisses, logo atrás vem o Sofista, seu cachorro mal humorado. Ele me convida a correr, mas limito-me a sorrir, contra a vontade, e acenar com a caneca, pois a outra mão está no bolso do roupão e tenho preguiça de tirá-la só para cumprimentá-lo.
Sei que o Seu Ulisses entra no mar, ele e o Sofista, então às vezes penso: - “como deve ser bom entrar no mar”. Mas limito-me a sentar na varanda do meu apartamento e olhar o vai e vem das ondas e dos banhistas. Esta semana um rapaz foi pego por um tubarão, só a cabeça dele foi encontrada dois dias depois aqui em frente. Então pensei: - “nem tão longe ele estava, e para um tubarão a praia deve ser um prato cheio”. Por essas e outras nunca entro no mar.
Daqui de cima o mar é de um azul que não se acredita, no inverno chego a confundi-lo com o céu e chego a querer entrar em suas águas, mas aí me vem a imagem do tubarão e de como o sol queima a pele e de como me incomoda a areia, então fumo um cigarro e me distraio criando histórias para cada navio que parte no horizonte.
Quando acordo de madrugada, pouco vejo do mar. A orla não me interessa, não há pessoas e as ondas me dão náuseas, mas se é lua cheia, vejo as pequenas ondas que se formam mar adentro. Então acendo um cigarro, mas não tomo café. Café a esta hora me tira o sono e eu gosto de acordar cedo e ver os banhistas pela manhã e ver o Seu Ulisses correndo logo cedo. Ver um homem de 60 anos correr logo pela manhã me dá ânimo para pensar em um dia, talvez, correr também, e quem sabe até entrar no mar.
Às vezes, vejo Seu Ulisses voltando de sua corrida. Ele e o Sofista, seu cachorro mal encarado. Então aceno com a caneca de café como a dizer: - “sigam sem mim!”. E ele se vai, ele e o Sofista. Às vezes, penso na possibilidade do Sofista ser comido pelo mesmo tubarão que comeu o surfista, então imagino que sem o Sofista o Seu Ulisses quereria que eu o acompanhasse, aí não penso mais, não suportaria a idéia de ter que substituir um cachorro. Embora queira muito, um dia, entrar no mar.

Sábado, Agosto 29, 2009

Madame Diablo Apresenta


Segunda-feira, Julho 27, 2009

Linda, A Princesa Enfeitiçada [2]

Este ano resolvi investir num espetáculo infantil. É o primeiro da minha carreira, assumindo tanto a dramaturgia quanto a direção. No elenco a moçada afinada da Cia. Dona Maria do Fulô, que está fazendo bonito e agradando tanto crianças quanto adultos.Linda, A Princesa Enfeitiçada trata de uma princesinha que no dia do seu aniversário de 15 anos descobre que uma bruxa havia lhe jogado um terrível feitiço e que se ela não beijasse um príncipe encantado até à meia noite desse dia, se transformaria numa terrível criatura. Neste caso, o Espelho Mágico da Parede lhe dá duas alternativas de se livrar do feitiço: correr atrás do Príncipe Encantado e fazer com que este lhe beije ou pedir a Terrível Bruxa da Floresta que desfaça este feitiço logo.O elenco é composto pela Flávia Mól que interpreta a princesa Linda; Bruna Alves como o Espelho Mágico da Parede; David Braga, o Príncipe Encantado e a Digníssima Bruxa do Norte; Hudson Oliveira, Coiso, o assistente de bruxa; Patrícia Santos, a Terrível Bruxa da Floresta e Thainá Dutra que interpreta a Fada Madrinha mais sem noção que se tem notícia.A trilha sonora foi composta pelo músico Eric Lana e a sonoplastia é de Pedro Vilaça. Os figurinos eu divido com Walter Martins. O cenário, adereços, maquiagem, bonecos, fotos e iluminação, ufa... são do Walter Martins e a produção e arte gráfica da Eduarda Mól. Com isso o espetáculo está completo.

Desde sua estréia em março deste ano, o espetáculo tem sido um sucesso e o mais impressionante é que os adultos parecem curtir muito mais que as crianças que são nosso público alvo. Fomos parar em Rio Doce num evento de formação de público, apresentamos em São Gonçalo do Bação e sei lá quantas vezes em Itabirito. Neste último fim de semana participamos do X FACE (Festival de Artes Cênicas de Conselheiro Lafaiete) e não passamos em branco pelo festival, levamos o prêmio de melhor texto original (pra mim) e 6 indicações (Melhor espetáculo, direção, figurino, cenário, melhor ator para o Hudson e atriz coadjuvante para Tainá).

Graças a este festival outras portas se abriram e a companhia recebeu muitos convites para se apresentar em outros lugares, em breve circularemos por outras cidades do interior mineiro como Barbacena, Ponte Nova e Rio espera e também Belo Horizonte, a agenda eu passo em breve. Aproveito para deixar aqui meus agradecimentos a toda equipe do X FACE que nos recebeu com muita competência e carinho, principalmente ao Geraldo Lafayette pela força e dedicação ao evento e à Secretaria Municipal de Patrimônio Cultural de Turismo de Itabirito pelo apoio e a confiança em nosso trabalho.

É isso!

Terça-feira, Junho 30, 2009

Vamos Apoiar

Clique na imagem para ampliar...

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Conto - Maria

Sentou-se, pois já não se agüentava em pé.
Pôde ainda ver a porta da sala fechar-se com violência à sua frente. O eco percorreu todos os corredores do prédio em que morava, andar por andar. E a suposta certeza de que os vizinhos já sabiam, por antecipação, o que ocorria, não mais a afligia. Ouvia se exaurir os passos do marido até o elevador, até este chegar e o levar embora para sempre.
Ele se foi.
Maria voltou a estar só.
Só!
Permaneceu sentada em seu sofá por uma, duas ou cinco horas, não se sabe. Ela se perdeu em memórias, nas poucas lembranças que conseguiu reter. Nada de lágrimas. Nada. Tinha no sangue a força de mulheres habituadas a viverem sozinhas. Habituadas a verem partir para sempre a vida, as alegrias, os sonhos.
Como tantas Marias que veio do interior sozinha, anda atrás de um sonho, atrás de qualquer coisa que não sabe muito bem o que é ou o que representará em sua vida. Veio atrás de algo que viu na TV, ainda menina, quando a luz elétrica chegou onde morava, e este fato significava muito para uma menina de 12 anos. Deixou para trás a mãe, os irmãos menores, o irmão que partiu antes dela, o pai já morto, a sina que não queria para si. Veio como o vento.
Com o que a cidade poderia representar, descobriu ainda na chegada, que mulher aqui tem que ser guerreira, mais que qualquer mulher de qualquer lugar. Mais que Maria. Mas o que aprendera na vida não era o suficiente para o que sonhara. Talvez a moça da novela soubesse coisas que deveria aprender. Com isso aprendeu a usar batom, a soltar o cabelo, a encurtar o vestido, no entanto, casou-se logo.
Mas, Maria agora anda só.
Faz o que faz qualquer mulher que veio de qualquer lugar, pois essa lida ela traz no sangue. Trabalha em casa de gente importante e na observação diária do que seria certo de se fazer aprendeu a ser importante também e a não dar importância a isso. Ficar só talvez fosse sina. Lavar, passar, cozinhar era sina, e na lida diária do que deveria ou não ser feito aprendera que sonhar também é sina pra mulher que veio de longe, assim como sabe que os sonhos que tem estão sempre onde seus pés não podem tocar.

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Quando o assunto já não é sério

Pra estes dias me convidaram para participar de uma comunidade no orkut dedicada à MPB e falar ‘algo de bom’ sobre uma determinada cantora, pois nesta mesma comunidade estavam falando mal dela (que coisa, hein?). Bom, fui ver qual é a da comunidade. São quase 400 mil membros, sei lá quantos tópicos sobre os mais variados nomes da música brasileira e cada tópico com muitos, mas muitos membros opinando. Até aqui tudo bem. Os tópicos vão dos mais interessantes aos mais imbecis. Mas vale tudo. O que me deixou realmente constrangido foi fato de um pobre e inocente membro abrir um tópico sobre um determinado artista e logo atrás virem mais de sei lá quantos membros falando mal desse artista que certamente tem pavor do orkut.
Enfim, pelo pouco que percorri na comunidade, me parece que ela foi feita para uns falarem mal dos ídolos dos outros (não é isso?), já que, pra mim, há uma grande diferença entre não ‘curtir’ determinado som ou artista e desrespeitar o trabalho desse cara ou o gosto musical do outro. E respeito, ta passando longe ali.
Chega a ser estúpido quando alguém apresenta um artista novo, lançando o primeiro álbum e deixa um link para que possamos conhecer o tal trabalho, então vem uma fila de sujeitos burros e mal intencionados carregados de adjetivos do tipo: “merda, lixo, horrível e blá blá blá”, depois de ouvir uma música mal gravada no youtube. O pior é saber que é um bando de gente estúpida que não entende música e pelo tom dos comentários não entende de porra nenhuma, pois não dá pra colocar no mesmo pacote determinados artistas, cada um tem um estilo, um jeito, uma estética e tantas outras coisas que os tornam tão distintos quanto interessantes. Gostar de todos fica meio complicado, mas respeitar estas nuances é o mínimo que se pode espera de alguém que tenha pelo menos bom senso.
Há uma grande diferença entre música ruim e a música que eu não gosto, então, por favor, não vamos comparar quem já morreu com quem está apenas começando, aliás, vamos dar uma chance a quem está apenas começando. Vamos tentar entender as diferenças entre o que é pop ou rock ou samba ou tudo isso junto, e entender que não dá pra gostar de tudo. Tem coisa que não da pra comparar. Paula Toller realmente não tem nada haver com Ana Carolina, mas isso não é o fim do mundo, nem motivo pra ofensas. Zélia Duncan não se parece em nada com Marcela Biasi, mas juntas fizeram uma música belíssima e isso é ótimo. Mariana Aydar não quer roubar o lugar de Roberta Sá e vice-versa. Nara, Elis, Elizeth e Clara como tantas outras, já tiveram sua vez, mas são eternas e geniais do mesmo jeito. Diversidade é a palavra que reina em nosso cenário musical e já que não dá pra curtir uma coisa, que deixe a outra em paz ou pelo menos, deixe-nos, os fãs, livres com nossos próprios gostos musicais.

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Conto - Quando nos casarmos

Sei que quando nos casarmos, você me levará para ver o mar. É uma vontade antiga que carrego comigo desde menina e você, para me fazer feliz como todo bom marido, se sacrificará para realizá-la. Assim que nos desposarmos num sábado pela manhã de um dia de maio, onde o outono suaviza o calor de abril e as folhas das árvores darão um charme em meu caminho até o altar, vou ter a certeza que você me levará para conhecer o mar.
Carrego comigo essa vontade desde menina, deitada às margens dos rios, olhando suas águas descerem lentamente em direção ao mar. Meu pai sabia que meu olhar perdido logo atiçaria minhas vontades. Ele sempre dizia que as mulheres eram feito o mar: ‘Mudam conforme a lua e o vento é capaz de transformá-las’. E assim eu era, como as águas das chuvas que desciam pela vidraça de minha casa, assim como as enxurradas que passavam em frente ao meu portão e se encaminhavam para o rio e logo em seguida o mar. Por isso a minha vontade, ainda menina, era ser chuva.
Nesse tempo, disse a meu pai que queria conhecer o mar, lembro-me de sua voz dizendo: ‘deixo para que seu marido a leve logo após se casarem’. Disso eu já sabia. Minha mãe, também quando menina, quis conhecer o mar. Como todas as mulheres ela quis descer os rios e ser levada até o mar. Por isso, seu pai tratou logo de casá-la para que seu marido a levasse ao mar. Meu pai sabia das coisas e sabia que essa vontade também me acometeria, por isso tratou logo de me trazer você.
Tem sido assim por muito tempo e nós casaremos por uma vontade antiga das mulheres da minha família. Num dia de maio, bem sei. Eu vestida de branco caminhando sobre as folhas que outono despejará sobre meu caminho. O caminho que me levará até você. Então nos veremos felizes e com um sorriso ansioso assentiremos um com o outro.
Depois, eu já não sei, quando voltarmos teremos que nos esforçar para nos amar, para nos conhecer, para o resto da vida. Depois desse dia não sei mais o que será. Uns dizem que o mar transforma as pessoas. Talvez as mulheres, os homens não sei. Umas voltam felizes, outras nem tanto. Já ouvi dizer de mulheres que nunca voltaram. Ficaram pelo caminho. Por isso, tento não me preocupar com a volta. Em como será quando estiver em nossa casa e nossos filhos chegarem, um após o outro, e nós dois já transformados pela brisa não teremos mais com o que sonhar.
Mas não quero que se entristeça por isso. Não agora. Daqui a um tempo, quando estivermos bem velhinhos e sentados na varanda de nossa pequena casa olharemos nossas velhas fotos, nos lembraremos do mar, do seu cheiro, de sua brisa e da certeza que tínhamos quando, felizes, caminhávamos de mãos dadas pela areia.

Sábado, Maio 16, 2009

Crítica - Onde brilhem os olhos seus

E foi levantando a platéia ao som de ‘Sinhá Pureza’ que Fernanda Takai encerrou o registro do show ‘Onde Brilhem os olhos seus’ na noite dessa quinta-feira 14 de maio no Teatro Municipal de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, um teatro aconchegante que recebeu muito bem esse show fazendo com que a anfitriã se sentisse em casa.
E estava em casa mesmo, Fernanda, que já morou em Nova Lima, deslizava muito a vontade no palco. Desenvolta e falante com nunca, ela transformou sua aparente timidez em aliada e entre uma música e outra trazia a platéia cada vez mais para junto de si com casos engraçados e os porquês das escolhas do seu repertório. Fernanda não perdeu o humor nem mesmo quando esqueceu o segundo versinho de ‘Lindonéia’, o que a fez recomeçar a música duas vezes.
Fernanda Takai é vocalista do grupo de pop/rock Pato Fu há 17 anos, e este tempo com a banda lhe trouxe a maturidade necessária para se arriscar neste voo solo. ‘Onde brilhem os olhos seus’ foi lançado no final de 2007 consecutivamente aqui no Brasil e no Japão, mais tarde foi lançado na China, Argentina e Portugal, países tão diferentes e inusitados como os novos arranjos para cada música cuidadosamente retirada do repertório de Nara Leão e que nas mãos de John Ulhoa e Lulu Camargo ganharam ares pop. Ainda em 2007 este álbum recebeu o APCA de melhor disco de música popular e entre outros prêmios, recentemente ganhou o Disco de Ouro pelas 50 mil cópias vendidas.
A turnê de ‘Onde brilhem os olhos seus’ percorreu meio país e não poderia deixar de ganhar esse merecido registro em DVD. Fernanda Takai levou todas as músicas do disco para o palco, “por um lado é bom, pois vamos tocar as músicas preferidas de todo mundo’ disparou Fernanda logo no início da noite. Além das 13 músicas contidas no álbum e ‘Kobune’, versão em japonês de ‘O barquinho’ presente na edição japonesa do disco, ainda sobrou espaço para os gostos pessoais de Fernanda como ‘There must be an angel’ do grupo inglês Eurythmics, ‘Ordinary world’ do Duran Duran e ‘Ben’ de Michael Jackson, músicas que Nara nunca gravou, mas que caíram muito bem nesse repertório e no gosto do público. Além dessas, para o nosso deleite, foram incluídas ‘Você já me esqueceu’ gravada por Roberto Carlos em 72, o ‘Rítimo da Chuva’ e a novidade nesse show ‘Cinco Discos’ da Fernanda e do John, gravada anteriormente por Pedro Mariano. E finalmente, para encerrar a noite ‘Sinhá Pureza’ de Pinduca, um carimbó que Nara não gravou, mas que evoca claramente as origens de Fernanda, que nasceu no Amapá.
E desse modo Fernanda Takai encerra a noite mostrando bom gosto e um refinamento impar ao se apropriar do repertório de Nara Leão sem perder sua personalidade e abandonar suas raízes pop. O resultado disso foram os calorosos aplausos de fãs de origens e idades tão diversas que se misturavam entre os fãs de Nara e os eufóricos fãs do Pato Fu, mas que nesta noite e para este registro, estavam ali para aclamar uma grande artista que vive um dos melhores momentos de uma sólida carreira.

Quinta-feira, Maio 07, 2009

Convite - Erva Daninha

Espero vocês lá...



Sábado, Abril 25, 2009

Crítica - Corpo Casa Casca

Digressão continua sendo a marca principal na criação do artista plástico Walter Martins. Com seu mote no corpo humano como morada e a própria morada do corpo humano e todas as suas fragilidades, o artista apresenta, esta que é sua segunda individual, a exposição Corpo Casa Casca conta com 18 obras criadas a partir dos mais variados tipos de objetos e materiais e o deslocamento de suas funções usuais, oscilando entre escultura, pintura e instalação.

Em constante diálogo com os novos paradigmas das artes brasileiras, Walter Martins, com seus 33 anos de vida, é um dos artistas mais ativos e promissores de sua geração e vem construindo sua habilidade como artista plástico através da relação com o uso de materiais diversos em seu trabalho nas artes manuais, decoração, cenografia, maquiagem e iluminação, o que o torna um grande conhecedor de técnicas precisas para converter a realidade a sua volta em criação estética.
Corpo Casa Casca vem da necessidade do artista de excitar a curiosidade do nosso olhar resoluto, levando-nos a um lugar pouco trafegado a partir do deslocamento do objeto ordinário e cotidiano para o centro das atenções humanas. Enquanto o mundo caminha para a banalização das formas, conteúdos e serventias, Walter Martins evidencia o que perde valor e coloca o vulgar em destaque sem a necessidade da cobrança do entendimento formal e resoluto.


Serviço: A exposição fica aberta a visitação no Hall da Casa de Cultura Maestro Dungas até o dia 10 de maio.